1214739392721459
top of page

ROBOT LOVE: QUEM CONTROLA A MÁQUINA?

  • 13 de jul.
  • 6 min de leitura
No dia 01 de agosto, o Kumaras Garopaba recebe a ROBOT LOVE, uma festa de psytrance que usa a figura do robô para falar sobre uma contradição do nosso tempo: quanto mais a tecnologia promete facilitar a vida, mais ela parece reorganizar nosso trabalho, nossa atenção, nossos afetos e nossa percepção da realidade.

A ROBOT LOVE não nasce de uma rejeição à tecnologia. A música eletrônica, a fotografia digital, o design e a própria divulgação da festa dependem dela. A questão não é escolher entre o humano e a máquina. É perguntar quem controla as ferramentas, quais interesses definem seu uso e quem absorve os custos de cada transformação.

A tecnologia nunca chega sozinha

Toda grande mudança tecnológica costuma ser apresentada como inevitável. Primeiro surge a promessa de eficiência, democratização e liberdade. Depois aparecem as consequências: profissões reorganizadas, conhecimentos desvalorizados, mercados concentrados e novas formas de controle.

Durante a Revolução Industrial, trabalhadores ingleses conhecidos como luditas destruíram máquinas utilizadas na indústria têxtil. A imagem popular os transformou em inimigos irracionais do progresso, mas sua revolta era dirigida principalmente contra a maneira como os equipamentos estavam sendo usados para reduzir salários, eliminar autonomia profissional e enfraquecer trabalhadores especializados.

O conflito não era simplesmente entre pessoas e máquinas. Era entre diferentes formas de organizar o trabalho.

Essa distinção continua atual. Resistir a uma aplicação tecnológica não significa necessariamente rejeitar a tecnologia. Pode significar questionar um sistema que implementa inovação sem participação, proteção ou distribuição justa dos benefícios. Evidências apresentadas ao Parlamento britânico descrevem o ludismo justamente como uma reação à perda de sustento e à imposição de sistemas que diminuíam o valor da contribuição humana.


Hoje, o mesmo discurso reaparece quando trabalhadores, artistas e criadores questionam inteligência artificial, automação e plataformas digitais. Qualquer crítica corre o risco de ser tratada como medo do futuro. Mas o problema central permanece: o avanço técnico pode ampliar capacidades humanas ou apenas transferir renda, poder e autoria para quem controla a infraestrutura.


A fotografia e a máquina de produzir realidade

Desde seu surgimento público, em 1839, a fotografia foi recebida com fascínio e desconfiança. O daguerreótipo parecia capaz de registrar o mundo automaticamente, por meio de um dispositivo mecânico e químico. A fotografia nasceu simultaneamente como ferramenta científica e como meio de expressão artística.

Sua chegada alterou o trabalho dos retratistas, a circulação de imagens e a própria ideia de representação. Mais tarde, os processos industriais permitiram que fotografias, gravuras e ilustrações fossem reproduzidas em grande escala. A produção de imagens cresceu junto com jornais, revistas, livros e sistemas de propaganda.

A câmera não eliminou a arte. Ela modificou seus critérios.

A pintura deixou de ser a única forma dominante de produzir uma representação visual precisa. A fotografia, por sua vez, precisou construir sua própria linguagem: enquadramento, luz, tempo, distância, montagem, documentação e interpretação.

No século XX, câmeras menores e processos mais simples colocaram a imagem nas mãos de um público cada vez maior. No final do século, a fotografia digital alterou novamente toda a cadeia produtiva. A primeira câmera digital foi desenvolvida nos laboratórios da Kodak na década de 1970, mas as câmeras digitais só chegariam ao mercado muitos anos depois.

O filme, o laboratório, a revelação, o papel e o arquivo físico deixaram de ser etapas obrigatórias. O custo de cada fotografia caiu. O número de imagens explodiu.


Essa democratização trouxe acesso, velocidade e novas linguagens. Também produziu precarização profissional, dependência de plataformas, excesso de conteúdo e a impressão de que uma imagem perdeu valor porque se tornou tecnicamente fácil de produzir.

Agora, com sistemas generativos, a câmera deixa de ser necessária para criar uma imagem aparentemente fotográfica. O arquivo já não precisa começar diante de uma cena. Ele pode nascer de uma instrução textual e de um modelo treinado com enormes bancos de imagens produzidas anteriormente por pessoas.

A pergunta deixa de ser apenas “isso é uma fotografia?” e passa a ser: de onde vieram as referências utilizadas, quem autorizou seu uso, quem será remunerado e como distinguir um documento de uma simulação?

A tecnologia não destrói automaticamente a fotografia. Mas modifica sua função. Em um universo saturado de imagens sintéticas, a fotografia pode recuperar força justamente como testemunho de presença: alguém esteve diante daquela pessoa, daquela paisagem ou daquele acontecimento.


A música eletrônica sempre foi um encontro com a máquina

A música também carrega uma longa história de tensões tecnológicas.

O theremin, desenvolvido no início do século XX, foi um dos primeiros instrumentos eletrônicos relevantes. Ele permitia controlar som sem contato físico direto, transformando movimentos no ar em frequência e volume.


Mais tarde vieram sintetizadores, sequenciadores, samplers e baterias eletrônicas. Cada ferramenta foi recebida com algum nível de resistência. Havia o medo de que instrumentos eletrônicos substituíssem músicos, de que samplers eliminassem intérpretes e de que máquinas de ritmo acabassem com bateristas de estúdio.

A Roland TR-808 é um exemplo direto dessa contradição. Quando foi lançada, no início dos anos 1980, seus sons foram criticados por não parecerem suficientemente reais. Ao mesmo tempo, músicos temiam que ela permitisse produzir faixas sem contratar bateristas. Quando a máquina fracassou comercialmente e ficou barata no mercado de usados, tornou-se acessível para jovens produtores e ajudou a formar linguagens fundamentais do hip-hop e da música eletrônica.

A limitação técnica virou estética.


A máquina não substituiu simplesmente o músico. Tornou-se instrumento nas mãos de outras pessoas, muitas delas excluídas dos estúdios tradicionais. Ela reduziu algumas funções, abriu outras e criou novos territórios culturais.


O psytrance é resultado desse processo. Seus timbres, repetições, modulações, linhas de baixo e ambientes psicodélicos não tentam esconder sua origem eletrônica. A máquina não imita uma banda. Ela cria uma experiência sonora que seria impossível sem síntese, processamento e programação.

Mas mesmo dentro da música eletrônica existe uma diferença entre utilizar tecnologia para expandir uma linguagem e utilizar tecnologia para fabricar conteúdo em escala, reduzir custos e ocupar artificialmente os espaços de circulação.

Uma ferramenta pode ampliar a criação.

Um sistema industrial pode usar a mesma ferramenta para tornar o criador dispensável.


Quando a criação vira matéria-prima

A inteligência artificial generativa intensifica um conflito que já existia nas plataformas digitais. Fotografias, músicas, ilustrações, textos e gravações passam a funcionar como matéria-prima para sistemas que aprendem padrões e produzem novos conteúdos.


O ganho de produtividade é real. Um artista pode testar ideias, organizar referências, gerar variações e realizar tarefas que antes exigiam estruturas maiores. Ao mesmo tempo, os modelos podem ser usados para substituir trabalhos remunerados, imitar estilos e inundar plataformas com produções automáticas.

A UNESCO identifica riscos relacionados a direitos autorais, concentração econômica, diversidade cultural, transparência e sobrevivência financeira dos criadores. Em relatório publicado em 2026, a organização apresentou projeções de perdas globais de receita de até 24% para criadores musicais e 21% para criadores audiovisuais até 2028, caso a expansão da inteligência artificial ocorra sem mecanismos adequados de remuneração e governança. O risco não é apenas perder empregos. É reduzir a cultura ao que os sistemas conseguem calcular como mais provável, reconhecível e rentável.


Modelos treinados sobre o passado tendem a recombinar padrões já existentes. A criação humana, porém, não nasce apenas da combinação formal. Ela surge de experiências, conflitos, territórios, corpos, acidentes, relações e decisões que não podem ser reduzidos ao resultado final.

Uma música não é somente um arquivo de áudio. Uma fotografia não é somente uma distribuição de pixels. Uma festa não é somente um conjunto de conteúdos publicados nas redes.


O amor no centro da máquina

O robô da ROBOT LOVE não representa um inimigo. Ele também não aparece como salvador. Ele é uma figura ambígua: produto da tecnologia, operador da música e personagem capaz de imaginar alguma forma de afeto.
Sale
Robot Love | Psytrance
R$40.00
Kumaras Garopaba
Comprar

A palavra “love” cria uma falha dentro da lógica automática.

Amor não é eficiência. Não pode ser completamente medido, previsto ou otimizado. Exige risco, presença, reciprocidade e tempo. Ao colocar amor e robô na mesma imagem, a festa propõe uma pergunta: o que ainda podemos preservar de humano dentro dos sistemas tecnológicos que construímos?

Talvez o problema não seja uma máquina aprender a criar imagens ou sons.

O problema é uma sociedade começar a tratar seres humanos como máquinas: sempre disponíveis, constantemente produtivos, avaliados por métricas, condicionados por algoritmos e pressionados a competir com sistemas que não precisam descansar.


A pista como espaço de presença

Uma festa de música eletrônica é tecnológica em quase todas as suas camadas. Sistemas de som, iluminação, softwares, controladores, sintetizadores, redes digitais e equipamentos de produção tornam a experiência possível. Mas a pista não existe sem corpo.

O grave precisa atravessar o espaço. A música precisa ser compartilhada no mesmo tempo.


Pessoas precisam se deslocar, encontrar outras pessoas e responder fisicamente ao som. Mesmo quando a faixa é produzida por máquinas, a experiência permanece coletiva e orgânica.

Nesse sentido, dançar também pode ser uma forma de interromper a lógica produtiva. Durante algumas horas, o corpo deixa de ser apenas instrumento de trabalho, consumo e desempenho. Ele volta a ocupar espaço, perceber ritmo e construir uma relação direta com outras presenças.


A ROBOT LOVE utiliza a tecnologia para criar uma experiência que não cabe totalmente dentro dela.

Não se trata de defender um futuro sem máquinas. Trata-se de imaginar um futuro em que as ferramentas estejam subordinadas à vida, à cultura e às relações humanas , e não o contrário.

Use a criatividade para criar, até mesmo usando tecnologia!

No dia 01 de agosto, no Kumaras Garopaba, o humano entra na pista.

A pergunta continua aberta:

Nós estamos ensinando as máquinas a sentir ou estamos aprendendo a sentir cada vez menos?

ROBOT LOVE

01 AGOSTO

KUMARAS GAROPABA

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page